quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Porteiro
O que eles fazem é ver quem entra e quem sai. Com quem entra e com quem sai. Que horas entra e que horas sai. Quantas vezes entra e quantas vezes sai. Porque entra e porque sai. ONDE entra e ONDE sai.
O que será que o meu porteiro pensa de mim, hein?
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Teatro
Ele me enlouqueceu. Com aquele beijo sem sentimento. Aquele beijo agressivo. Aquelas mãos fortes. As marcas pelo meu corpo. As dores no dia seguinte. E o ódio que tive, sem saber o porquê. Ele foi sensacional.
Naquela noite, contracenei num palco alto, cheio de expectadores. Fui a puta que eu tanto gosto de ser e há tempos não sou.
Faltam homens que saibam entrar nessa cena de teatro.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Lembranças
Mas sei que ele lembra. Lembra das minhas caras e feições. Lembra do meu descontrole. Lembra da minha vontade constante de mais, sempre mais. Lembra do quanto me desejava, tantas vezes por dia. Lembra do quanto eu era a melhor. Lembra que nada nunca será da mesma forma. Lembra de tudo que descobrimos juntos. De tudo que eu aceitei, provei e gostei. Lembra das posições, dos cheiros, dos sussurros e de mim.
Lembra de mim. Lembro dele.
E vivemos de lembranças.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Cinderela
Eu sou atriz. Cinco dias por semana, uso uma máscara. Escolho uma de minhas fantasias e uso uma maquiagem para parecer mais velha, mais séria. Atuo nesse papel cinco dias por semana, cerca de 12 horas por dia. Aparento ser simpática, motivada e sorridente. Falta-me caráter e ética. Esqueço tudo que os meus pais me ensinaram. Recrimino os pobres, o samba e o subúrbio. Não ando de ônibus, nem de metrô. Moro no Leblon e tenho o carro do ano. Meu namorado me leva em restaurantes caríssimos e paga a conta, claro. Mostro que produzo muito, inclusive nos fins de semana. Passo por cima de meus parceiros, na maior descrição. Digo, e depois desdigo. Faço tudo como manda o figurino.
Fingo viver um sonho, que está longe de um conto de fadas, materializado no Castelo da Cinderela. O castelo, eu vou rever ainda esse mês.
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Acabou
E assim, entramos na estação do metrô, com a sensação de estar em uma cidade em colapso. Um azul forte escurece o corredor. Toda a parede mostra os últimos momentos daquilo que chamamos de mundo. Pelo chão, onde os trabalhadores andam, um mar revoltado. Eles se locomovem para o serviço diário, mas com a notícia de que o mundo irá acabar. E, mais uma vez, não há nada que possamos fazer.
Ninguém percebe que o mundo já acabou. Pessoas são más, egoístas e competitivas. Não pensam, não questionam, não entendem. Sentam em frente à televisão e divertem-se com o filme de Hollywood. Querem roupas, jóias e apartamentos. Querem uma aliança no dedo e um casamento de fachada. Querem o corpo esbelto e o cabelo liso. Pensam ter vontade própria. Pensam ser felizes. Pensam ser independentes. Acreditam que o mundo irá acabar.
Em 2012.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Ratinhos
Quando puderam sair da jaula, sentiram-se livres. Eram tão bitolados dentro daquela caixa, que não conseguiam ver muito além. Então, todos eles, quase que em fila indiana, entraram na outra jaula. Tinham (e muitos ainda têm) a impressão de estarem livres. Não percebem que apenas mudaram de jaula. Competição, falta de ética, lavagem cerebral, desrespeito, mentiras. Imagens, postura, cara a tapa. Promessas não cumpridas. Esperança de sair da jaula para um lugar melhor.
São um monte de ratinhos de laboratório. Correm em suas esteiras para chegar antes do outro. Fingem que são amigos, felizes e comprometidos. Vivem arrumadinhos e sorridentes.
Acho que vou comprar um nariz de palhaço.