quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sempre ele

- Por amor?
- Por ter percebido que ainda treme o corpo inteiro?
- Por ter imaginado como seria esse dia durante 14 meses?
- Por todo dia, sem exceção, pensar nessa possibilidade?
- Por ter sido justamente quando reapareceu, parecendo ter saudade?
- Por ter tido vontade de um monte de coisas, todas proibidas?
- Por ter entendido que realmente tudo acabou?
- Por ter entendido que tudo nunca acabará?

Não, deve ter sido pelo fato de nenhuma palavra ter sido dita. Pela falta de reação. Pela sincronia do susto. Deve ser isso.
Tanto imaginação e nenhum ação.
Sempre será assim. Quanto à isso, já estou ok.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Será(2)?

Não tinha como imaginar ou prever algum tipo de emoção. No máximo uns sorrisos, após muitas cervejas. Aqueles mesmo lugares provavelmente não seriam os mesmos, devido às novas circunstâncias. As coisas teriam outras cores, outros ares. Os personagens seriam outros, marcados pelos meses distantes. Nada de novo aconteceria, até as lembranças estariam apagadas pelo passado. Mas, não havia como saber.

A previsão não funciona quando falamos de sentimentos, de relações, de histórias. Não sei se foi a forma como enchia o copo compulsivamente, não sei se foi a forma como fumava seus cigarros, compulsivamente. Também pode ter sido o seu jeito grosso, de falar como o garçom. Ou a forma como se referia a mim, me comparando à uma outra das suas, doente. Será que foi sua bolsa, cruzada ao corpo? Ou seu tique de piscar os olhos? Será que foi sua mania de reclamar dos meus saltos?

Não há previsões.

Pudemos relembrar. Será que foi seu jeito ríspido, afirmando que pelo menos na cama eu tinha que ser boa? Foi nessa mesma época, nesses mesmos arredores, nessas mesmas linhas que tudo começou.

Será? Será?
Será?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Porteiro

Porteiro é uma profissão bastante interessante. Parece meio monótono, mas acho que eles se divertem bastante. Passam o dia ali, sem ter muito o que fazer. Atendem interfone, abrem porta, conversam com os colegas na rua. Os meus nem mesmo ajudam com as malas. Na maioria das vezes, não estão na portaria no momento que chego e, de madrugada, eles dormem em uma cadeira de praia montada ali mesmo no corredor.

O que eles fazem é ver quem entra e quem sai. Com quem entra e com quem sai. Que horas entra e que horas sai. Quantas vezes entra e quantas vezes sai. Porque entra e porque sai. ONDE entra e ONDE sai.


O que será que o meu porteiro pensa de mim, hein?

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Teatro

Acho que a vodka deve ter me deixado meio louca. Mas não apenas louca de álcool. Louca a ponto de cometer loucuras, de verdade. Eu queria dar na cara dele. Eu queria tirar sangue daquelas costas. Eu queria encontrar motivos para odiá-lo. Ele me pagou uma água, me sentou num sofá da área vip e me mentiu dizendo morar em Bonsucesso. “Por que você não acredita? O que importa não é o que temos, mas o que somos.” Aquilo era papinho de um playboy de boate, que eu queria espancar. Eu queria arranhar e enforcar aquele menino. Feio. Muito feio. O mais horroroso dos últimos tempos, sem dúvida. Mas algo me enfeitiçou. E, enfeitiçada, eu queria brigar com ele. Com tapas, sangue, força, ódio.

Ele me enlouqueceu. Com aquele beijo sem sentimento. Aquele beijo agressivo. Aquelas mãos fortes. As marcas pelo meu corpo. As dores no dia seguinte. E o ódio que tive, sem saber o porquê. Ele foi sensacional.

Naquela noite, contracenei num palco alto, cheio de expectadores. Fui a puta que eu tanto gosto de ser e há tempos não sou.


Faltam homens que saibam entrar nessa cena de teatro.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Lembranças

Quando me lembro dele, lembro também do meu corpo em êxtase. Lembro das minhas pernas e braços debatendo-se em minha cama. Lembro da respiração difícil, da falta de ar. Lembro dos meus pedidos de “pare, por favor!”. Lembro da minha sinceridade ao dizer “não agüento mais”. O prazer não cabia em minha alma. Lembro de palavras, dos gritos desesperados. Lembro da vontade de sempre mais. Lembro dos tapas implorados. Lembro da mão dele em meu pescoço. Forte como eu pedia. Lembro da puta que eu conseguia ser, todos os dias. Lembro de seu gozo jorando em minha bunda. Lembro da força que ele usava para me possuir. Lembro da minha entrega. Lembro que aquilo ali, ficou ali.

Mas sei que ele lembra. Lembra das minhas caras e feições. Lembra do meu descontrole. Lembra da minha vontade constante de mais, sempre mais. Lembra do quanto me desejava, tantas vezes por dia. Lembra do quanto eu era a melhor. Lembra que nada nunca será da mesma forma. Lembra de tudo que descobrimos juntos. De tudo que eu aceitei, provei e gostei. Lembra das posições, dos cheiros, dos sussurros e de mim.

Lembra de mim. Lembro dele.

E vivemos de lembranças.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Cinderela

Eu sou atriz. Cinco dias por semana, uso uma máscara. Escolho uma de minhas fantasias e uso uma maquiagem para parecer mais velha, mais séria. Atuo nesse papel cinco dias por semana, cerca de 12 horas por dia. Aparento ser simpática, motivada e sorridente. Falta-me caráter e ética. Esqueço tudo que os meus pais me ensinaram. Recrimino os pobres, o samba e o subúrbio. Não ando de ônibus, nem de metrô. Moro no Leblon e tenho o carro do ano. Meu namorado me leva em restaurantes caríssimos e paga a conta, claro. Mostro que produzo muito, inclusive nos fins de semana. Passo por cima de meus parceiros, na maior descrição. Digo, e depois desdigo. Faço tudo como manda o figurino.


Fingo viver um sonho, que está longe de um conto de fadas, materializado no Castelo da Cinderela. O castelo, eu vou rever ainda esse mês.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Eles não querem seres humanos.
Eles querem super man, batman, he-man e homem aranha.

Eu não quero eles.
Eu quero ética, postura e humanidade.