quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Cinderela

Eu sou atriz. Cinco dias por semana, uso uma máscara. Escolho uma de minhas fantasias e uso uma maquiagem para parecer mais velha, mais séria. Atuo nesse papel cinco dias por semana, cerca de 12 horas por dia. Aparento ser simpática, motivada e sorridente. Falta-me caráter e ética. Esqueço tudo que os meus pais me ensinaram. Recrimino os pobres, o samba e o subúrbio. Não ando de ônibus, nem de metrô. Moro no Leblon e tenho o carro do ano. Meu namorado me leva em restaurantes caríssimos e paga a conta, claro. Mostro que produzo muito, inclusive nos fins de semana. Passo por cima de meus parceiros, na maior descrição. Digo, e depois desdigo. Faço tudo como manda o figurino.


Fingo viver um sonho, que está longe de um conto de fadas, materializado no Castelo da Cinderela. O castelo, eu vou rever ainda esse mês.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Eles não querem seres humanos.
Eles querem super man, batman, he-man e homem aranha.

Eu não quero eles.
Eu quero ética, postura e humanidade.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Acabou

Pois é. Eles não apenas acham que o mundo vai acabar como fazem questão de dizer a todos. Nós não temos opção. Precisamos conviver com toda essa poluição. E não é somente em outdoors, revistas e televisão. Somos devorados por propagandas dentro do banheiro, no fundo do prato, dentro do cinema. Precisamos ser saudáveis, atléticos e magros. Mas também temos que comer Elma Chips, Bombom Garoto e Mac Donald´s. Não temos escolha nenhuma. Não somos responsáveis por nós mesmos. Nem pelos nossos atos, nem pela humanidade. O mundo vai acabar. “Nós avisamos”.

E assim, entramos na estação do metrô, com a sensação de estar em uma cidade em colapso. Um azul forte escurece o corredor. Toda a parede mostra os últimos momentos daquilo que chamamos de mundo. Pelo chão, onde os trabalhadores andam, um mar revoltado. Eles se locomovem para o serviço diário, mas com a notícia de que o mundo irá acabar. E, mais uma vez, não há nada que possamos fazer.

Ninguém percebe que o mundo já acabou. Pessoas são más, egoístas e competitivas. Não pensam, não questionam, não entendem. Sentam em frente à televisão e divertem-se com o filme de Hollywood. Querem roupas, jóias e apartamentos. Querem uma aliança no dedo e um casamento de fachada. Querem o corpo esbelto e o cabelo liso. Pensam ter vontade própria. Pensam ser felizes. Pensam ser independentes. Acreditam que o mundo irá acabar.

Em 2012.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ratinhos

Todos aqui vieram de um laboratório. Lá, eles aprenderam a agir exatamente assim. Passaram os dias e as noites naquela sala, fazendo tudo que o palhaço mandasse. Sabiam como abaixar a cabeça e aceitar tarefas. Feriados, fins de semana e madrugadas foram passados naquele laboratório com regras que não poderiam ser desrespeitadas.

Quando puderam sair da jaula, sentiram-se livres. Eram tão bitolados dentro daquela caixa, que não conseguiam ver muito além. Então, todos eles, quase que em fila indiana, entraram na outra jaula. Tinham (e muitos ainda têm) a impressão de estarem livres. Não percebem que apenas mudaram de jaula. Competição, falta de ética, lavagem cerebral, desrespeito, mentiras. Imagens, postura, cara a tapa. Promessas não cumpridas. Esperança de sair da jaula para um lugar melhor.

São um monte de ratinhos de laboratório. Correm em suas esteiras para chegar antes do outro. Fingem que são amigos, felizes e comprometidos. Vivem arrumadinhos e sorridentes.

Acho que vou comprar um nariz de palhaço.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

?

Não entendo porque você ainda me procura. Não entendo porque você vem, me chamando como sempre chamou. Não entendo porque não esquece. Ou pelo menos finge que esquece. Não entendo como suas letras têm o efeito de palavras suaves ao pé do ouvido. Não entendo porque suas promessas são tão curtas quanto um sonho bom. Não entendo porque você aparece nos meus sonhos. Não entendo porque você ainda diz que me ama. Não entendo porque diz que tudo era tão bom. Não entendo porque fala que quer, se não vai fazer, mesmo querendo. Não entendo porque não mente, dizendo não querer. Não entendo porque decidiu assim. Não entendo porque fechou as portas. Não entendo porque lembro sempre que o metrô pára ali. Não entendo porque te procuro no meu vagão. Não entendo porque você lembra até mesmo do jeito que eu falava, respirava e amava. Não entendo porque você lembra e me faz relembrar. Não entendo porque a cerveja com você era mais gelada. Não entendo porque com você tinha sempre feijão. Não entendo porque você está sempre aqui. Não entendo porque não me esquece. Não entendo porque me procura. Não entendo porque minha ausência te aflige. Não entendo.

Mas também não quero entender nada. Não mesmo.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Portas

É. O problema está mesmo na enorme quantidade de portas. Ficam todos à procura da felicidade. A procura do par perfeito, do amor ideal, do homem da vida. Encontram qualquer um, no meio da rua, numa festa, na padaria. Beijam, transam, trocam algumas palavras. E caem na ilusão. Ilusão de ter encontrado o par perfeito, o amor ideal, o homem da vida. Ilusão de existir o par perfeito, o amor ideal, o homem da vida.

Não é possível nada disso. Não existe nada disso. Porque temos muitas opções de porta. A porta que nos leva ao saradão de pau pequeno, mas que dá pra tirar mó onda. A porta do intelectual, bom de papo, mas péssimo de cama. A porta do alternativo, com uma puta pica, mas que não se satisfaz nem comendo a torcida do Flamengo. A porta do quadradão, apaixonado, mas que não tem virilidade, como diria alguém. A porta do paulista, lindinho, mas que ta lá em São Paulo. A porta daquele que chupa loucamente, mas é obsessivo como ninguém.

A porta do sexo por uma noite, a porta da homossexualidade, a porta da amante, a porta do relacionamento aberto, a porta do casamento na igreja, a porta do namoro de 3 meses, a porta do amor de carnaval, a porta do swing...

Com tantas portas, como saber se estamos entrando na melhor? Como ter satisfação com apenas uma, se podemos testar todas?

A culpa não é minha, não é sua. A culpa é da modernidade e de suas portas.


Será que para entrar em uma nova porta precisamos sair daquela que estamos?

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

(Sem)Dor

Queria realmente poder trocar o sorriso que só eu tenho por uma carinha esmiuçada. Só para te fazer feliz e você reclamar um pouco menos de sua vida ociosa. Talvez, se eu conseguisse ter a cara fingida de “Não doeu” você não tivesse se apaixonado pelo meu lindo sorriso. Talvez, se eu fosse um pouco menos sincera, teria fingido acreditar que tudo daria certo. Talvez, se eu conseguisse mentir, não teria te feito fugir, tantas vezes.

Não, não doeu. De verdade, não. Se houvesse apenas um pouquinho da dor que você me deseja, eu confessaria. Só para te fazer feliz. Infelizmente, não teve nada de dilacerante. A conta chega sim. Para mim, para você e para todos os outros. Por isso, digo de forma clichê, que o mundo dá voltas. Talvez, dessa vez, você tenha tido a sensação de ver meu corpo ao solo. Mas, só para te fazer feliz, sugiro guardar o seu tesão, porque a volta pode ocorrer a qualquer momento.

Talvez você se sinta especial o suficiente para destruir alteregos. Talvez eu seja imatura ou queira me auto-afirmar. Talvez nenhum caráter seja melhor do que a falta dele. Talvez a sua insegurança esteja nas entrelinhas.

Talvez eu esteja no fundo do seu copo, em uma sexta-feira. Só para te fazer feliz.