segunda-feira, 14 de abril de 2008

Julia

E lá chegou ela...de boné! Sim, de boné! Cabeça baixa, olhava pro chão. Lembrei de mim mesma na hora que a vi caminhando em nossa direção. Tímida, muito tímida. E lembrei também dele me dizendo que ela era muito parecida comigo. E lembrei de Freud e meu enorme amor por ele. Ela realmente me lembrou mim mesma. Lá na minha adolescência, conhecendo a família do primeiro namorado. Mal sabe ela que ainda vai ter várias sogras, analisando todos os seus gestos. Talvez ela não tenha cunhadas ciumentas assim, mas sogra, com certeza ainda terá muitas. E põe muitas nisso.
Mas ela deve achar que não. "Vamos ser felizes para sempre" e por isso preciso aguentar essa familia, esse almoço de domingo, essas pessoas me olhando. Preciso ser simpática, mas não consigo, morro de vergonha de tudo. Faço um prato de arroz a piamontese com escalopinho e como sem falar nada. Torço para essa tarde acabar logo. Quem essa irmã dele acha que é? Nao pára de me olhar! Que menina desagradável.
Enquanto isso, eu me mordendo. Tomando 362 latas de cerveja. Fingindo que estava tudo ótimo, melhor impossível. Porra, já disse mil vezes que até ontem ele era meu bebê...e agora ele tá aqui na minha frente "Mor...ai Mor...." Mor???? Tá de sacanagem né?? Que coisa mais brega. Chama logo de Mozinho então!! Ai meu Deus. E eles se abraçam, se beijam. Eu finjo estar dormindo na cadeira de praia. Minha prima me olha com aquele risinho irônico e provocativo. Eu finjo nem perceber. Estou fingindo tudo hoje. Como se meu sábado já tivesse sido muito bom, finjo que meu domingo está completando o fim-de-semana.
Resolvo ir embora. Sim, não quero mais ver isso. Não quero mais estender esse domingo. O fim-de-semana foi uma merda por completo. Vou dormir. Às sete da tarde. Faz muito tempo que não durmo por 12 horas seguidas. Tchau, Julia. Até a próxima!
Ahh!! E ela não toma Coca-Light. A única frase que ela pronunciou durante a tarde deste maravilhoso domingo foi: "Sou viciada em mate com limão, o normal". Ela é magrinha mesmo...e escapou da pimenta.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Nunca

Lá venho eu de novo com minha fingida aversão a ditados populares. “Nunca diga nunca”.
Nunca vou freqüentar a Barra. Nunca vou comer peixe cru. Nunca vou te perdoar. Nunca mais vou encontrá-lo. Nunca vou ligar para ele. Nunca vou correr atrás. Nunca vou gostar de cerveja. Nunca vou sair da casa dos pais. Nunca vou namorar um barrense. Nunca vou casar. Nunca vou ser fiel. Nunca vou ser dependente. Nunca vou ser caseira. Nunca vou fazer intercâmbio. Nunca vou falar bem inglês. Nunca vou repetir de ano. Nunca vou estudar no São Vicente. Nunca vou achar que estou grávida. Nunca vou escalar uma montanha. Nunca vou deixar de comer doce. Nunca vou tomar um doce. Nunca vou lavar roupa de homem. Nunca vou deixar de ser pão-dura. Nunca vou querer sair do Rio. Nunca vou ser amante. Nunca vou ser orgulhosa. Nunca vou tratar bem a namorada do meu irmão. Nunca vou ter 12 horas de obrigação por dia. Nunca vou aceitar acordar às 7 da manhã. Nunca vou ter um blog. Nunca vou estudar finanças. Nunca vou gostar de televisão. Nunca vou fazer o que eu não quero. Nunca vou namorar com ele.
Salve os ditados populares!!

quinta-feira, 20 de março de 2008

Passado

Paro para pensar naqueles momentos vividos ao lado dele. Éramos completamente diferentes, mas nos completávamos. Eu era feliz pra caralho. Tinha tudo que a personagem da novela das 8 luta para ter e só consegue no último capítulo. E ele tava ali. Para mim. Sempre. Vivemos, crescemos, dividimos, aprendemos, cedemos, compreendemos e, é claro, amamos. E digo isso sem hipocrisia porque amamos mesmo. Aquele amor verdadeiro no fundo da alma. Acabou.
Assim, numa conversa de telefone. Acabou. Fim. Game over. Ninguém acreditou, nem mesmo eu. Quando percebi, tinham-se passado meses e a falta foi pouca. Confesso sem peso na consciência. Amei muito e talvez por isso a saudade não tenha sido tão pesada. Amava e desejava o bem. Acima de tudo. Não queria prender a mim uma pessoa que merecia alguém por completo. Eu não estava mais ali. Estava aqui, onde estou até hoje, um ano e meio depois.
E agora sou eu que estou presa, e é um presídio gostoso. Admito que talvez haja até uma certa dependência, vontade intensa do sempre, do para sempre. Levo tudo que vivi como requisito para o agora, um agora delicioso, sonhado, desejado. O ele do passado também deve estar preso, ou talvez acomodado. Acho que pela sua personalidade, acomodado. Que merda! Quero vê-lo em um cela arrumada, com ela.
Acomodado ou preso, ele está feliz. Ele é feliz. Não pensa muito, vida sem reflexões muito profundas. Por isso, é feliz. Os mais filósofos que me desculpem, mas às vezes, invejo esse não-pensar. Essa felicidade superficial. Onde, para mim, tudo seria mais fácil. Mas hoje, mesmo com os milhões de pensamentos/reflexões/angústias/questionamentos estou presa.
Caralho! Nunca imaginei que estar presa fosse tão bom! To feliz pra caralho! (já usei o “caralho” 3 vezes, agora 4).
Pois é, a mulher independente, feminista e extremista está presa. E feliz pra caralho!

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Tempo

Odeio concordar com esses ditados populares, mas hoje não tem jeito. "O tempo é o melhor remédio". Realmente. Pena que o efeito não é imediato. Puta que pariu gritado bem alto. Esse tempo que não passa e eu ansiosa para que ele seja meu remédio.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Irmão

A gente reclama que o tempo passa rápido demais. Mas vive torcendo para que o dia de trabalho termine logo, para que chegue sexta-feira, para que a aula acabe. Dizemos que cada ano que passa é mais rápido, mas reclamamos incessantemente da rotina. Tudo muito contraditório. Fato é que eu faço parte dessas pessoas que falam da velocidade do tempo. Outro dia meu irmão fez 18 anos. Maior de idade. Assim, de uma hora para outra. Fechei os olhos, acordei e lá estava ele, falando das aulas da auto-escola. Tô ficando velha.
Até outro dia ele era um neném, desses de cabelo branco, de tão loiro. Lindo de morrer. Corujise a parte, ele era a criança mais bonita que já vi. A pele ficava marcada com qualquer toque, o que me ferrava, porque nas brigas eu sempre levava a culpa, acusada de agressão. Aquelas manchas roxas eram suas aliadas. Parecia que eu tinha esmurrado a criança. Que nada. Amor da minha vida.
Tocou meu telefone na sexta-feira, véspera de carnaval. Minha mãe, em pânico, dizia que um adolescente tinha ligado dizendo que meu irmão(zinho) estava caído de bêbado num bloco de carnaval. Meu Deus!!! Mas ele é uma criança. Crianças não bebem. Fui atrás dele para constatar o pior: ele não estava bêbado. Estava PEGANDO uma mulher. Palavras dele. Meu Deus!! Criança não pega mulher. Pelo contrário, meninos pequenos nem gostam de mulher.
Tá bom, me conformei. Ele não é mais uma criança. Muito menos aquele neném de cabelos brancos. Ele dormia com um paninho. Minha mãe só deixava eu pegar ele no colo quando estava sentada. Ela achava que eu era boba né? Pegar no colo sentada, não é pegar no colo. Pegar no colo é sair andando por aí com o bebê nos braços. Tudo bem, eu tinha 7 anos.
Agora estou com 24. E meu irmão com 18. Ele sai a noite, bebe, PEGA MULHER. Puta que pariu! O tempo passa rápido pra caralho. Daqui a pouco vai entrar pela minha casa uma patricinha, dessas que eu odeio, de mãos dadas com ele. Aí eu que serei adolescente. Vou colocar pimenta na Coca Light dela. Posso? Ou é muita maldade? Ahhh....ela que me aguarde!

Felicidade

Trimmmmm!!!!! O barulho do interfone interrompeu a atenção da menina, no meio da novela. O interfone sempre vinha antes da campanhia. Ao abrir a porta, aquele beijinho seguido de um abraço. Sim, ao se cumprimentarem, ainda existiam os gestos carinhosos. E eles lutariam para que esse chamegos resistissem ao tempo. Ultimamente, os abraços tinham um novo cheiro. Um perfume que ela achava delicioso. E ficava feliz por perceber que ele se preocupava em estar cheiroso para ela. Maravilhoso saber que o outro gosta de agradar.
Na cozinha, é hora de colocar as cervejas no congelador. Para isso, ele tira todos as guloseimas-engordativas-congeladas do freezer. Ela observa. Com aquele olhar apaixonado. Cada gesto é lindo. Ela sabe que está vivendo o que sempre quis. Parece que achou o que procurava. Caramba. Já tinha perdido as esperanças e até estava buscando sambas na zona sul. Mas, como diriam todos os amigos: “as coisas acontecem quando menos esperamos”. Podia voltar a frequentar a Lapa. E aquela cerveja na geladeira trazia uma felicidade que a menina até evitava comentar.
É a paixão que agora se tornava real. Dividiam a mesma lata de cerveja, comiam no mesmo prato, as pernas sempre entrelaçadas. Não desgrudavam. E se a menina demorasse mais de 5 minutos na cozinha, logo ouvia um grito de “cadê você?”. Eles queriam e precisavam estar juntos o tempo todo. Em frente ao computador, só era necessária uma cadeira. Ela sempre no colo dele. Até quanto aos programas de TV eles estavam de acordo. Ele via novela e ela, futebol.
As duas escovas de dente. As duas toalhas. Uma só cama. E a casa agora tinha aquele cheiro de “casal feliz”, que tantos sonham. A menina transbordava de alegria, mas lembrava de uma amiga de infância que uma vez disse a ela que era para provocar inveja que ela se dizia tão feliz. Agora, então, a menina feliz era quietinha. Mas quem a conhecia via em seus olhos e sorrisos tamanha alegria. Eles tinham se encontrado. Ele estava começando a acreditar que a vida prega peças mesmo, mas um dia as pessoas se encontram.
Do seu lado, ele se sentia seguro. Dizia não gostar de falar sobre sentimentos, mas nas crises de carência fazia declarações. E ela anotava todas as frases bonitas, em um caderninho do ursinho Pooh. Que ele disse querer ler, mas só daqui há dez anos. Ela sentia que a confiança começava a existir. O mais difícil em um relacionamento, principalmente com o histórico dos dois. Mas eles não desistiam. Começavam a acreditar de verdade na relação.Naquela noite, entre os carinhos, cairam no sono. Acordaram às 4 da manhã, com desejo de estar mais juntos do que a física permite. Encaixaram-se, um dentro do outro, e voltaram a dormir. Mais juntos, impossível...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Canadá

Impressionante como determinadas coisas marcam nossa vida. E outras acontecem quase que mecanicamente. De um tempo pra cá tenho pensado em como essa vida nos surpreende. Quando menos esperamos, tudo pode mudar. Hoje estou aqui, sentada numa mesa de escritório, observando as pessoas trabalhando ao meu redor. Há 6 meses atrás, eu estava lá do outro lado, provavelmente tomando um capuccino cheio de creme. “With cream, please”. Eles acham o máximo andar com aqueles copos pela rua.
Morrava num apartamento que achava tudo de bom. Quatro companheiros de quarto. Uma bagunça. No chão da cozinha era praticamente impossível pisar porque o lixo transbordava e as cascas de ovo faziam um tapete junto com as embalagens de queijo industrializado. Eram três apartamentos com quatro pessoas em cada. Quase um albergue.
Minha mãe chegou lá para me visitar. Ou melhor, para me buscar. Ficou horrorizada com o prédio em que eu morava e o estado de calamidade do apartamento. Eu achava tudo ótimo. Até organizado demais. Cada pessoa tinha suas coisas na geladeira e isso era super respeitado. Haviam quatro manteigas, quatro ketchups, quatro maioneses. E olha que as embalagens lá não são nada pequenas. Isso não é organização? Ninguém podia “roubar” nem uma colher de manteiga do outro. Fala sério né mãe, super organização!
Enfim, eu adorava. E as pessoas que lá moravam também. Muita gente passou por lá enquanto eu era moradora do prédio. E acredita que eu, mesmo com minha característica de chatonilda, tenho saudade de todos eles? Talvez o único que não me faça falta seja o japonês que disse que eu era mal-comida. De resto, todos eles foram extremamente especiais. Cada um com seu sotaque.
E aquela época não volta mais. Outro dia eu soube que os três apartamentos agora são habitados por outros brasileiros, desconhecidos por todos nós. Mas pelo menos ficam as raízes. Eles devem estar pisando em ovos. E vivendo momentos em que só saberão da importância depois de aterrizar em São Paulo. São lembranças que ficam, de uma época que não volta mais.
Brindemos a esses 6 meses com uma pitcher e uma porção de nachos?